terça-feira, 26 de outubro de 2010

SOMENTE PRA TE AMAR



Baby Espíndola

Somente pra te amar, 
nem imaginas o quanto te procurei.
Mil rostos olhei,
muitas bocas beijei,
mas nenhuma tinha esse gosto especial
de mel e frutos silvestres,
essa mistura maravilhosa
que tanto me fascina.

Somente pra te amar,
viajei com as asas das gaivotas
em vôos rasantes,   
mergulhei com o albatroz,
porque imaginava
que serias uma sereia,
muito bem escondida, no fundo do mar.

Somente pra te amar,
cavalguei nas ondulações
de outros corpos tentadores.
Mas não encontrei prazer.
Porque o meu destino,
após tantos anos de buscas,
eu o identifiquei
no fundo dos teus olhos escuros,
nos beijos da tua boca,
nas curvas do teu corpo,
mapa de pecado e sedução.

Somente pra te amar,
me deixei sufocar
na fumaça de cigarro nos bares,
esvaziei garrafas e mais garrafas
de vinho e cerveja.

Somente pra te amar,
enfrentei o fogo de infernos.
E esses pecados, confesso,
com monumental decepção,
porque era no céu que estavas,
deusa da minha solidão.

E dizer que tantos anos vaguei errante...
Fui amante, fui guerreiro,
fui beija-flor de rosas e flor de pessegueiro,
seduzi e fui seduzido,
fui tímido e atrevido,
fui poeta, fui cowboy,
fui vítima e fui carrasco.

Mas, em verdade, agora sei,
não fui nada... nunca fui nada,
porque em tudo que fiz
e sonhei,
simplesmente te procurava.
Tudo fiz,

somente pra te amar. 

[Sábado, 13/03/1999]




<<<  ##  >>>
A boa música, você ouve na Rádio Cambirela.





sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O SOL DE UM CEGO

Quem passa e vê aquele cego,
no jardim plantando flor,
não sabe, não percebe,
que também já teve amor.

Foi feliz e viu o sol,
foi amado e amou,
hoje sofre solitário,
porque o sol se apagou.

Numa tarde de outono,
sua história começou,
foi traído, abandonado,
pela mulher que tanto amou.

Desde então, passa os dias no jardim,
de rosa em rosa, qual beija-flor...
E à noite desaparece,
na solidão, vai chorar a sua dor.

Ninguém entende seu sofrer,
ao falar, eu até peco,
pois não percebo, não vejo,
que a rosa é o sol de um cego.

Porém, se alguém dele se aproxima,
lamentos não ouvirá,
pois, mesmo no sofrimento,
o cego do jardim insiste em sonhar.

De cabelos já brancos, não esquece
a mulher com cheiro de jasmim...
“Cegos são os que enxergam”
– ele explica mais ou menos assim:

“Sou feliz e agradeço, Senhor!,
até pelo sol que não vejo,
pela chuva, os campos, os ventos;
por estas flores, a lua,
pelas singelas gotas de sereno”.

Sou feliz e agradeço, Senhor!,
pelas ondas que dançam nos mares,
pela natureza bordada por rios,
por esta imensa noite que vivo,
ou este céu azul de anil”.

Baby Espíndola

<< * >>

08/01/73
Atualizado em 03/11/02

CONFISSÕES DE UM BEIJA-FLOR APAIXONADO

Num canto de um jardim
que tem quatro cantos,
e em cada canto
o encanto de dezenas de flores,
mora uma Rosa Vermelha,
misteriosamente encantadora,
mais bela
que todas as outras rosas,
mais vermelha
que a mais doce cereja.

Todos os dias,
da primeira hora da sabedoria
até o piar da coruja,
um Beija-Flor solitário
– o mais ligeiro dos pássaros –
voa em torno da Rosa,
em expontâneo ritual,
alegremente cantante,
apaixonado!

E, para que se cumpra
a profecia do livro do amor,
todos os outros pássaros,
reunidos nos ramos das árvores,
ouvem,
do pequeno alado,
o hino encantado,
cujas rimas são confissões.
Confissões de amor.

Pobre Beija-Flor apaixonado!
Não resiste ao perfume da flor.
Estonteado,
despenca em plena acrobacia
e cai,
nocauteado,
no canto mais úmido
e mais escuro do jardim,
à sombra do envelhecido jasmim.

Mas,
se para quem ama,
sem ser correspondido,
o destino oferece o sofrimento,
também reserva gotas de energia,
que o pobre passarinho,
resignado,
recolhe como dádivas divinas.

Quando recuperado,
volta então ao ritual
em torno da amada,
exaltando a sedução de suas pétalas
e o inebriante perfume.

Decididamente,
está apaixonado!
Apaixonado-confesso.

Se outro de sua espécie
corteja a Rosa desejada,
o Beija-Flor,
em pânico,
aterriza num galho seco...
Então,
sem fôlego,
emite um grito agudo,
o hino que traduz o amor desesperado.

Sonha
o Beija-Flor
com a Rosa, a mais bela,
só para si...
E, de tanto amor no peito,
julga-se até maior e mais forte
que o barulhento ben-te-vi.

* * *

Numa tarde sombria,
céu adivinhando tempestade,
o Beija-Flor,
todo apressado,
bebeu na folha do abacate
e retornou ao jardim.

! Que decepção !
Em volta da Rosa Vermelha,
num canto do jardim
– que tem quatro cantos
e em cada canto
o encanto
de dezenas de flores –,
exibe-se outro beija-flor,
! desconhecido,
! atrevido,
! oportunista!
Este,
da rainha-das-flores,
só deseja o prazer da companhia,
enquanto durar sua beleza.

A Rosa
! vaidosa,
! inexclupulosa,
abre as pétalas em radiante sorriso
e, de graça,
sem nada exigir em troca,
oferece seu perfume
ao pretendente amante.

O nosso Beija-Flor apaixonado
ainda tenta uma solução,
mas o outro,
! orgulhoso,
! vaidoso,
investe em tempestuosa agressão.

E, no meio de tantas bicadas,
em pleno vôo,
o invasor,
acidentalmente,
bate na Rosa
e ocorre o inesperado:

As pétalas caem desordenadas
e são arrastadas pelo vento.
Reinam tristeza e desespero,
num canto do jardim
que tem quatro cantos...

Em segundos,
da Rosa
! tão amada,
! tão querida,
! tão desejada,
resta apenas a saudade.

Imediatamente,
como num relâmpago
de tristeza e dor,
o jardim
que tem quatro cantos
perde todo o encanto...
E o impostor vai-se embora...

O Beija-Flor apaixonado
chora desesperadamente,
desolado.
É mais que um choro,
é um lamento:
retrato do sofrimento.

Incrédulo,
com o peito em sobressalto,
o eterno enamorado
reza ao Deus dos Jardins
e tenta,
inutilmente,
reunir as pétalas da Rosa,
fragmentos de uma vida
passageira e colorida,
pedaços de saudade.

Então,
descobrindo que o esforço é vão,
que a vida,
sem a Rosa Amada,
não tem sentido,
o Beija-Flor sofrido
fecha as pequeninas e delicadas asas
e jura nunca mais voar.

(Baby Espíndola)

<< * >>

Rio do Sul, 12 /10 /88.

terça-feira, 25 de maio de 2010

AMOR EM SILÊNCIO

Por que ficas assim tão assustada,
quando apenas insinuo que te amo?!
E eu nem confessei ainda,
o sentimento vulcânico,
a paixão que guardo no peito,
o carinho misturado com desejo...
E que só não te entrego,
com mil rosas
e cento e cinqüenta beijos,
porque me deixas um pouco sem jeito.
Não há porque ter medo,
se quase nada exijo de ti.
Pois me conformo com o teu sorriso,
este sorriso sensual, meigo e franco
e esta maneira tão especial de olhar.
Tudo isso já é muito
para quem nem merece tanto!
Quero que saibas,
que não desejo apenas o teu corpo,
este corpo,
que me incendeia o sangue,
a um simples toque de mão,
este corpo,
todo feito de veneno
e maravilhosa sedução.
Mas, se for impedido
de confessar que te amo,
de viver este momento de encanto,
então andarei noites e dias
pelas ruas e avenidas,
e cantarei mil cantigas aos ventos,
todas rimando
amor e sofrimento.

(Baby Espíndola)
<< . >>
Madrugada de domingo, 25 de julho de 1999.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

AS CANÇÕES QUE O POVO NÃO CANTA MAIS

São as canções dos ventos da liberdade,
são os ecos das vozes que silenciaram
por falta de auditório.

As canções
que o povo não canta mais,
estão no choro da criança
que não nasceu;
na sombra da árvore
que não brotou da terra-mãe;
no mar sem praia;
na lagoa sem água;
no pássaro de asas de sonho;
na cor da flor que murchou.

As lutas e batalhas pela terra,
o direito sagrado de respirar o verde,
o pulmão adoentado,
a tosse: tambor sem ritmo,
a mãe sem filho,
o homem sem horizonte:
Tudo isto, são filosofias
das canções que o povo não canta mais.

Porque o povo tem medo,
porque há fantasmas invisíveis
habitando almas.
Porque há asfaltos
que rasgam véus de saudade
e há destinos sem futuro.
Porque o golpe da enxada sobre a terra
não é festejado,
o arado custa muito dinheiro,
e os grãos envenenam os passarinhos.

Por tudo isso,
não há mais canção para se cantar.
Porque ninguém pratica verbos de amor,
ninguém fala predicativos de solidariedade.

Morreram os espantalhos
das roças de trigo, soja, arroz e milho,
os insetos multiplicaram-se impunemente.
E a desilusão
escancara sua boca ao mundo
e ameaça engolir a esperança.

Não há mais canção
para se cantar,
porque nas cidades
as rimas terminam em sangue
e os campos apagaram os vaga-lumes.

Não há mais canção para se cantar,
porque atropelaram o respeito
e os ratos roeram o amor.

Não há mais canção para se cantar
porque a criança não tem mais pão,
porque, nos esgotos da vida,
escorre inutilmente o suor do trabalhador.

Não há mais canção para se cantar,
porque a fé despencou do telhado do céu.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

CRISTO DOS DESAMPARADOS

Oh, Cristo dos desamparados e dos aflitos,
quero te revelar
na condição de filho em espírito
- aquilo que bem sabes -,
que estão a me perseguir.
Usam de todos os argumentos
para me derrubar moralmente,
e aguardam a minha queda
como a cobra ultra-venenosa
que corre do local da picada,
porque a vítima poderá tombar
sobre seu corpo esguio e peçonhento.
Usam até manobras judiciais,
com argumentos mesquinhos e torpes.
Massacram os meus passos
e eu não tenho a quem recorrer,
ninguém para lavar os meus pés cansados.
Cospem no meu rosto
e jamais alguém oferecerá os cabelos
para enxugar a humilhação,
nem irá orar pelo meu padecimento.
Colocam aos meus ombros exaustos
a cruz da vida,
e me deixam quase sem saída.
Preciso encontrar, imediatamente,
a Tua porta, Cristo dos desamparados!
Jogam sal nas minhas feridas
e riem do meu pranto.
Tenho sede,
sede de compreensão e de amor
e ninguém me oferece
a água que alivia a dor.
Amotinados, me atacam pelas costas,
com gestos covardes.
Dilaceram os alicerces materiais
que me sustentam
e tentam denegrir minhas convicções,
que confesso, já não são muitas,
pois que minhas reservas estão se esgotando.
Perseguido, humilhado,
bem sei, cometo erros graves,
erros do desespero,
que somente Tú, Cristo dos desamparados,
poderás entender e perdoar.
Poucos são os instantes de total lucidez,
como agora o faço,
para desabafar ao papel,
esse monólogo da flagelação.
Infelizmente, não me compreendem,
nem mesmo quando faço o sacrifício da solidão,
isolamento necessário à introspecção.
Os que me perseguem
não conseguem nem mesmo explicar seus motivos,
o que me faz acreditar,
como agora me ocorre
(nessa fria madrugada de julho,
quando o tambor da tosse
marca a cadência da doença, da aflição
e da destruição da carne)
que, mais uma vez,
eles não sabem o que fazem.
Por isso,
através da Tua Santa Sabedoria,
tento chegar aO Pai,
para implorar,
que os perdoe,
pois não ultrapassaram ainda
a desprezível condição de sanguinários carrascos,
que precisam milenarmente
crucificar cristos anônimos,
filhos do povo,
Teus irmãos em espírito,
filhos do Mesmo Pai
que por milagre Te gerou.
Filhos,
todos eles diferentes destas bestas sem juízo,
loucas, enraivecidas, ensandecidas,
muito bem produzidas, bem maquiadas,
que se escondem sob os mantos de cordeiros.

(Baby Espíndola)
Madrugada de 09/07/97.

AQUELE NAVIO QUE TE CHAMA SOU EU

Uma cobra de asfalto,
serpenteando entre campos
e ondulantes montanhas,
te levou para muito longe,
para além do alcance do olhar,
onde se abraçam o rio e o mar.

Além do horizonte,
muito, muito longe!,
mais distante que a saudade,
num bairro de cães vadios,
um telhado de limo vela o teu sono,
enquanto outro homem,
embriagado pelos teus encantos,
compartilha dos teus sonhos.

No bairro de ventos uivantes,
violentando a madrugada,
navios de muitas bandeiras,
inclusive a brasileira,
derramam marinheiros no porto,
que respinga melancolia
e desalentado desespero.

Mulher!... Mulher que eu amei
em silêncio,
dentre todos os navios que choram,
que gemem na escuridão do porto,
o apito mais lamentoso
é o meu grito de amor,
o eco de um profundo sentimento.

Aquele navio que te chama,
na barra do grande rio,
antes de partir,
a caminho do desconhecido...
Aquele navio que te chama
sou eu.

Aquela luz muito distante,
trêmula, quase apagada
pela falta da energia do teu corpo,
é a luz dos meus olhos,
que de saudade choram
lágrimas sofridas,
que se misturam
aos respingos do mar e às gotas de sereno.
Da mesma maneira,
aquele marinheiro solitário,
perdido nas cavernas da noite,
também sou eu.

E aquela folha, caída ao mar,
navegando, tonta, com os ventos,
é uma carta silenciosa,
que jamais escrevi,
falando do meu amor impossível.

Em verdade,
sem o teu amor,
sou um barco sem bússola,
perdido no mar da vida
e sem porto para ancorar.
Sou o pássaro noturno,
que canta e te chama,
mas não sabe onde te encontrar.

Mulher mil vezes querida,
se, na velhice da noite
ou na infância da madrugada,
o sono te fugir sorrateiro,
fecha os olhos,
para ver o filme das nossas vidas...
E então recordarás alguns bons momentos,
que juntos passamos.

Mas, se um navio choroso apitar,
com sofrida insistência,
vá até a janela,
e aproveita para namorar a lua cheia
e deixa teu olhar navegar no tempo,
até cruzar com as âncoras do sofrimento
do homem solitário,
que te amou – e ainda te ama! – intensamente!

Mulher sonhadora,
mas capaz de atrevido abandono,
preste atenção...
Aquele navio que te chama,
com lágrimas
e saudades...
Aquele navio que te chama
sou eu!
O apito suplicante,
prolongado e assustador
é o meu grito, há anos sufocado,
o gemido da solidão.

(BabyEspíndola)